Métodos de Classificação em Sociologia: Durkheim e Bettencourt da Câmara
A sociologia, enquanto disciplina que procura compreender a realidade social, enfrenta o desafio de articular entre a análise do particular e a apreensão do geral. Dois autores portugueses e clássicos oferecem-nos esquemas de classificação das ciências sociais que, embora distintos, dialogam entre si e ajudam a esclarecer como podemos estruturar o objeto sociológico: Émile Durkheim e João Bettencourt da Câmara.
1. A Classificação Durkheimiana das Ciências Sociais
Durkheim adota uma abordagem pragmática: para ele, estudar a realidade social é confrontar sua complexidade. O sociólogo deve primeiramente descrever as particularidades e, só depois, buscar generalizações.
Ele propõe duas grandes dimensões ou campos no seio das ciências sociais:
- Morfologia social: estuda as condições mais “estáticas” da sociedade — a sua forma, as posições geográficas, as relações com o meio físico. Exemplos: demografia, geografia humana, ecologia social.
- Fisiologia social: estuda os processos dinâmicos, as manifestações vitais, as interações sociais entre indivíduos ou grupos.
Além disso, Durkheim reconhece disciplinas particulares com focos específicos — por exemplo, a sociologia económica (recursos, endividamento), a linguística (emquanto fenómeno social coercitivo e estruturado) etc.
Uma regra metodológica fundamental no pensamento durkheimiano é que, embora se possam estudar fenômenos sociais em contextos concretos distintos, os pressupostos de investigação devem ser homogêneos (isto é, usar critérios metodológicos comparáveis).
Durkheim desenvolve também importantes distinções analíticas como solidariedade mecânica vs. solidariedade orgânica, que explicam diferentes formas de coesão social conforme o grau de diferenciação social existente na sociedade. Wikipédia+2EBSCO+2
A seu tempo, em “As Regras do Método Sociológico” (1895), Durkheim afirma que os fatos sociais devem ser tratados como “coisas” — isto é, como realidades objetivas, externas ao indivíduo e dotadas de poder coercitivo. Wikipedia+1
Entretanto, uma crítica frequente à classificação durkheimiana é que ela privilegia certas áreas “canónicas” das ciências sociais, deixando de fora ou subvalorizando domínios emergentes ou interdisciplinares.
2. A Classificação Alternativa de João Bettencourt da Câmara
O professor João Bettencourt da Câmara (ISCSP, Portugal) propôs uma classificação com base não em disciplinas fixas, mas na natureza lógica do objeto de estudo. Partindo de uma inspiração combinada em Comte e Durkheim, ele distingue:
- Sociologia Geral
- Sociologias Particulares, subdivididas em:
• Sociologias Parcelares
• Sociologias Especiais
• Sociologias Mistas ou Compostas
2.1 Sociologia Geral
A Sociologia Geral tem por objetivo abarcar todas as realidades sociais sob todos os pontos de vista. Ela pode assumir uma abordagem:
- Sincrónica — estudo das relações entre os elementos de uma estrutura social num dado momento.
- Diacrónica — estudo das transformações estruturais ao longo do tempo (a passagem de um estado social a outro).
2.2 Sociologias Particulares
Aqui o foco é mais restrito, variando segundo a combinação entre “qual realidade” e “qual ponto de vista”:
| Tipo | Realidade abordada | Ponto de vista considerado |
|---|---|---|
| Especial | toda a realidade social | sob apenas um ponto de vista (por ex. a dimensão económica em geral) |
| Parcimonial / Parcelar | uma parte da realidade social (família, religião, etc.) | sob todos os pontos de vista |
| Mista / Composta | uma parcela específica da realidade (ex: a família) | sob um único ponto de vista (por ex. a sua dimensão económica) |
Segundo esta classificação, a Sociologia Geral é uma ciência de síntese, que pode integrar os contributos das sociologias particulares. As sociologias especiais, por seu turno, enfatizam uma única perspectiva sobre toda a realidade (por exemplo, uma sociologia da economia). As sociologias parcelares focalizam apenas partes da sociedade a partir de uma análise completa. Já as sociologias mistas ou compostas combinam a análise de uma parte da realidade com um ponto de vista específico.
Esse esquema permite maior flexibilidade e abertura metodológica do que classificações rígidas baseadas em disciplinas fixas.
3. Comparação e Potencial Crítico
- A classificação de Durkheim, apesar de robusta e respeitada, pode ser acusada de exclusiva, uma vez que contempla predominantemente áreas saudadas da sociologia clássica, negligenciando campos emergentes ou híbridos.
- A proposta de Bettencourt da Câmara, por seu caráter lógico e não dogmático, permite acomodar novos campos e temas sociológicos sem forçar enquadramentos disciplinares fixos.
- Contudo, a vantagem da classificação durkheimiana é sua clareza e sistematização clássica, o que facilita uma coerência metodológica ao longo das investigações sociais. A classificação de Bettencourt requer do investigador uma reflexão constante sobre o critério lógico que está a adotar.
Em suma: Durkheim nos oferece uma estrutura clássica, centrada em morfologia e fisiologia social, enquanto Bettencourt da Câmara propõe uma estrutura flexível e conceitual, que pode adaptar-se às mutações das ciências sociais contemporâneas.
Referências bibliográficas sugeridas
- Durkheim, Émile. Les règles de la méthode sociologique (1895).
- Durkheim, Émile. De la division du travail social.
- Durkheim e Mauss, Primitive Classification. University of Chicago Press+1
- Bettencourt da Câmara, João. (Obras em sociologia; consultar currículos e artigos) – ver informações curriculares de João Bettencourt da Câmara. iscsp.ulisboa.pt+1
- Artigos contemporâneos sobre classificação das ciências sociais (procurar no Google Académico termos como “classificação das ciências sociais Durkheim”, “Bettencourt da Câmara sociologia”).
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