História das teorias da comunicação — leitura guiada e comentada (Mattelart & Mattelart)

A Introdução define o campo da comunicação como um cruzamento indisciplinado de saberes (filosofia, história, sociologia, economia, biologia, cibernética), permanentemente tensionado por dualismos: redes físicas vs. imateriais, biológico vs. social, natureza vs. cultura, técnica vs. discurso, micro vs. macro, aldeia vs. globo, ator vs. sistema. A tarefa do livro é cartografar essa pluralidade, mostrando como as “idas e vindas” teóricas respondem a conjunturas históricas precisas e a transferências de modelos entre disciplinas. O resultado é uma história de fracionamentos e tentativas de articulação — mais do que uma linha reta de progresso, um fio que entrelaça dicotomias e reconciliações parciais.

1) O organismo social (séculos XVIII–XIX): circulação, estatísticas, massas

Os autores começam no século XIX, quando “comunicação” é pensada por metáforas de circulação (de bens, pessoas, ideias): divisão do trabalho (Smith), redes e totalidades orgânicas (Saint-Simon, Spencer) e uma teleologia do desenvolvimento histórico no positivismo (Comte). A sociedade é figurada como um organismo com veias e artérias — metáfora que antecipa as futuras imagens de rede. Em paralelo, nasce a gestão das multidões: a estatística moral de Quetelet e o “homem médio” legitimam tecnologias de governo pela medida; a psicologia das massas (Sighele, Le Bon) coloca o problema da opinião e da sua suscetibilidade a manipulação, antecipando tanto a sociologia dos media como a propaganda moderna. O sumário do capítulo regista precisamente estes núcleos: divisão do trabalho; rede/totalidade orgânica; história como desenvolvimento; estatística moral; psicologia das multidões.

Ideia-chave desta fase: comunicação = integração orgânica + governo das massas por números e psicologia. Esta dupla matriz (circulatória/técnica e massificante/política) reaparece ao longo do século XX sob novas roupagens.

2) Os empirismos do “Novo Mundo”: Chicago, efeitos e o “duplo fluxo”

Nos EUA, o olhar desloca-se para o laboratório social urbano. A Escola de Chicago (Park, Burgess, Mead, Cooley) trata a cidade como “espectroscópio da sociedade”: ecologia humana, zonas, migrações internas, diversidade/homogeneidade, métodos etnográficos. Ao lado, a Mass Communication Research organiza a agenda dos efeitos: Lasswell (fórmula quem diz o quê, por que canal, a quem, com que efeitos?; propaganda), Lazarsfeld/Merton (funções dos media; status conferral, narcotizing dysfunction), e a divergência que desemboca no “duplo fluxo” (Katz & Lazarsfeld): as mensagens viajam por líderes de opinião — a influência é mediada socialmente, não um “tiro direto”. O capítulo inclui ainda “decisão de grupo” e “uma voz dissonante” (correntes críticas que não compram a neutralidade funcionalista). Tudo isto está explicitado no sumário do livro: Chicago/ecologia humana; Mass Communication; impacto da propaganda; funcionalismo; discrepância teórica; duplo fluxo; decisão de grupo; voz disidente.

Viragem decisiva: do medo aos “efeitos poderosos” a um modelo de efeitos limitados e condicionados pelas redes sociais — antecâmara das teorias de receção e dos estudos culturais.

3) Teoria da informação e sistemas: de Shannon à cibernética

A partir dos anos 1940, a teoria matemática da comunicação torna-se eixo de transferência interdisciplinar. Shannon formaliza o sistema linear (fonte → codificador → canal/ruído → descodificador → destinatário) e a quantificação da informação (entropia), visando eficiência e fiabilidade sob ruído. O objetivo é “reproduzir num ponto B, de modo exato ou aproximado, uma mensagem selecionada em A”, minimizando custos e perdas: é o paradigma instrumental da comunicação como transmissão.

Os Mattelart sublinham o papel de biólogos e a circulação de analogias: informação/código no ADN (Avery, 1944; Watson & Crick, 1953), sistemas abertos (Bertalanffy) e o primeiro sistemismo orientado para totalidades, funções e feedback; a cibernética aporta controle/retroalimentação, generalizando “informação” como moeda comum entre máquinas, organismos e organizações. Mas a leitura crítica é clara: o “modelo finalizado” de Shannon reduz a técnica a instrumento, evitando interrogar a própria técnica como forma de racionalidade; e, nas ciências sociais, a importação sistémica/função pode ocultar poder, ideologia e história, se tomada como neutral.

Tese dos autores: a teoria da informação é um avanço técnico-científico e um dispositivo de tradução entre disciplinas — útil, mas com risco de despolitização do fenómeno comunicacional quando absolutizada.

4) Indústria cultural, ideologia e poder: crítica, estruturalismo, receção

Teoria crítica (Escola de Frankfurt). Adorno e Horkheimer cunham “indústria cultural”: a produção massiva de bens simbólicos obedece à mesma racionalidade técnica do fabrico industrial — serialização, estandardização, divisão do trabalho, administração de gostos e integração do público no statu quo. A crítica atinge tanto a idealização esteticista (contra “apocalípticos”) quanto certo celebra­cionismo da cultura de massas (“integrados”). Nas palavras dos autores, medir “cultura” com as grelhas da sociologia empírica arrisca forçar o objeto aos métodos, em vez de ajustar métodos à natureza do objeto.

Estruturalismo. A viragem linguística (Saussure) inspira a semiótica e leituras de aparelhos ideológicos de Estado (Althusser): reprodução social por meio de instituições e discursos. O sumário desta secção lista: método; indústria cultural; racionalidade técnica; teoria linguística; escola francesa; AIE/reprodução; dispositivo de vigilância; reificação da estrutura. Isto marca o eixo que vai de Barthes e Greimas a Foucault (dispositivo/saber-poder), com ênfase na estrutura face ao sujeito.

Cultural Studies (Birmingham). Stuart Hall reconcilia contexto, discurso e receção. No célebre “Encoding/Decoding”, a produção codifica sob códigos hegemónicos; as audiências descodificam de modos dominante, negociado ou oposicional, articulando mediações (classe, género, etnia). As influências (Gramsci/hegemonia) deslocam a ideia de “classe dominante” para uma direção intelectual-moral construída, com compromissos e mediações na sociedade civil. Investigações sobre representações de género/etnia e a passagem do texto para a audiência abriram o estudo da receção.

Nota crítica dos Mattelart: valorizar a resistência das audiências é essencial, mas pode eclipsar o novo regime de conhecimento do consumidor/usuário, no qual a racionalidade cibernética administra produção e consumo graças a medições finas de estilos de vida e perfis — o consumidor como objeto e sujeito de uma nova governamentalidade de dados.

5) Economia política: dependência, UNESCO, “indústrias culturais”

Os Mattelart descrevem a economia política da comunicação como correção às insuficiências da semiótica “encerrada no texto”: é preciso ligar lógicas tecno-económicas e político-culturais (nível nacional e multinacional), expondo limites do rótulo “imperialismo cultural” quando usado de forma indiferenciada. Entram em cena dependência, trocas desiguais e sistema-mundo (Baran; Wallerstein; Braudel).

Daí o debate na UNESCO sobre o NOMIC (Novo Ordenamento Mundial da Informação e Comunicação), culminando no Relatório MacBride (1980): crítica à comunicação em sentido único Norte→Sul e defesa de pluralismo e democratização de fluxos. A frente latino-americana é decisiva: crítica à “modernização” difusionista e experiências participativas (Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido), com políticas de comunicação popular e democratização da comunicação (Chile de Allende).

O passo dos anos 1970–80 é do singular “indústria cultural” ao plural “indústrias culturais”: estudar setor a setor, acompanhar a valorização capitalista de atividades culturais, e discutir a relação e a tensão com serviço público e democratização cultural. Ganham projeção Canadá/Québec, Espanha e o debate anglo-saxónico (Smythe denuncia o blind spot europeu: o “produto” da TV seria a audiência vendida aos anunciantes). A revista Media, Culture & Society abre as páginas a esta polémica.

6) O regresso do quotidiano: intersubjetividade, linguagem, audiências

Nos anos 1970–90, desloca-se o foco para práticas micro e interações: etnometodologia (Garfinkel), Goffman, análise da conversação; debate ator/sistema (Giddens) e viragem linguística (Austin; performatividade). Com Habermas, a esfera pública é repensada: do ideal de publicidade racional à crítica da “refeudalização” sob imperativos mercantis e técnicos (o cidadão torna-se consumidor; a publicidade substitui o debate).

Ao mesmo tempo, a pesquisa em audiências avança: do leitor/espetador como “alvo” passivo para sujeito interpretante em contextos de classe, género, etnia (Cultural Studies; feminismos). A secção “El regreso de lo cotidiano” organiza estes fios: movimento intersubjetivo; etnometodologias; ator/sistema; viragem linguística; agir comunicativo; etnografia das audiências; questão do leitor; Cultural Studies/feministas; usos e gratificações; consumidor/usuário.

O alerta dos Mattelart permanece: a exaltação do “poder do recetor” pode mascarar um novo aparato de conhecimento/gestão do consumo (perfis, dados, estilos de vida), que fecha em circuito programação-produção-consumo orientado por métricas de engajamento e segmentação.

7) A influência da comunicação: redes, crítica do difusionismo, cognição, mundialização

A última parte enfrenta três frentes. Primeiro, a figura da rede: crítica ao difusionismo linear (a ideia de que inovações “descem” dos centros para as periferias de modo unidirecional) e atenção às estruturas em rede, onde ligações fracas/fortes e mediações redefinem fluxos e circulação de informação (contra um modelo top-down simplista). Segundo, o diálogo com as ciências cognitivas, que trazem processamento de informação, esquemas, atenção, memória — explicando por que mensagens “pegam” ou se perdem. Terceiro, “mundo e sociedades”: hibridização cultural, reterritorializações, e crítica às naturalizações da globalização como estandardização inevitável. O sumário fixa estes eixos: rede/anti-difusionismo; ciências cognitivas; planeta híbrido; nova hierarquia do saber.

Aqui, os Mattelart confrontam a ideologia do “global marketplace”. O discurso do “fim da história” (Fukuyama) e a naturalização do capitalismo como único modo civilizacional são lidos como totalizações: a comunicação-mundo deve ser tratada como construção social e analisada com memória dos fundamentos materiais (economia-mundo, sistema-mundo; “poder triádico” UE-NAFTA-Ásia Oriental; Ohmae). “Rede” não é só metáfora: redes integram e segregam — produzem disparidades e novos excluídos, enquanto reconfiguram escalas (megarregiões, megacidades) e hierarquias do saber e do valor.

O fio que cose tudo (conclusão dos autores)

A história que os Mattelart contam não é um desfile de “melhores teorias”, mas a topologia dos seus deslocamentos:

  • O organicismo e a metáfora circulatória do século XIX reaparecem, tecnificados, na cibernética e na teoria dos sistemas;
  • A obsessão com massas e propaganda dá lugar a mediações, líderes de opinião e receções ativas, sem que se dissolvam relações de poder e economia;
  • As estruturas (AIE, semiótica) exigem reentrada do sujeito (audiências), mas os dados e as redes mercantis respondem produzindo um novo governo do consumidor;
  • A economia política reequilibra a balança, expondo fluxos desiguais, dependências e disputas (UNESCO/NOMIC; MacBride), enquanto a crítica à globalização recente insiste em mundos híbridos, reterritorializações e novas hierarquias do saber.
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No fundo, os autores devolvem a comunicação ao seu meio vital: uma prática que é simultaneamente técnica e política, económica e cultural, macro e micro, e cuja teoria se move num vaivém entre modelos que universalizam e etnografias que singularizam. Ler esta história é aprender a ver as continuidades sob a mudança — e a desconfiar das narrativas lineares que prometem soluções técnicas para problemas que são, também, relações de poder e de sentido.


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