Apontamentos de Aula – Comunicação Estratégica de Ciência

1. O que é Comunicação de Ciência?

Partindo de uma definição recente, comunicação de ciência é o uso intencional de capacidades, meios e atividades para provocar uma ou várias destas respostas em relação à ciência:

Tomar consciência de que algo existe (awareness); Despertar interesse pela ciência e pelos seus temas; Ajudar a formar opinião sobre questões científicas (por exemplo, vacinas, transexualidade, alterações climáticas); Promover compreensão de conceitos, métodos e resultados científicos; Gerar prazer e gosto pela ciência (gozo, fruição).

Não é apenas “explicar resultados”: é trabalhar perceção, atitude, confiança e envolvimento.

2. Porque devemos comunicar ciência hoje?

2.1. Tornar o conhecimento acessível

A ciência é percecionada como complexa e difícil por grande parte da população. A comunicação de ciência ajuda a: traduzir linguagem técnica; clarificar conceitos; tornar o conhecimento mais visível e utilizável no quotidiano.

2.2. Promover diálogo e participação

Vai para lá da simples transmissão de factos. Incentiva debate público sobre temas científicos com impacto social (saúde, género, tecnologia, ambiente, energia, etc.).

2.3. Valorizar cientistas e combater precariedade

Muitos investigadores são “invisíveis” fora da academia. Comunicar ciência torna o seu trabalho legível para a sociedade e para quem decide sobre financiamento.

2.4. Combater desinformação

Pandemia, vacinas, boatos sobre “vacinas chinesas”, medos em torno da gripe ou de novos tratamentos: a ausência de comunicação clara abre espaço a fake news e especulação. Comunicação de ciência responsável é antídoto para o ruído informativo.

2.5. Criar confiança e decisões informadas

Quanto mais conhecemos, mais confiamos. Ex.: websites e conteúdos audiovisuais de hospitais privados e públicos que explicam doenças, exames, tratamentos. Ajudam as pessoas a: perceber opções terapêuticas; procurar segunda opinião; decidir com base em informação, e não apenas medo ou boato.

2.6. Literacia científica e democracia

Aumentar literacia científica é condição para uma democracia mais sólida: cidadãos capazes de avaliar políticas públicas; escrutinar promessas; participar em decisões sobre risco, saúde, ambiente, tecnologia.

2.7. Financiamento e competitividade

Boas estratégias de comunicação fortalecem: reputação de centros de investigação; capacidade de captar financiamento nacional e europeu; construção de parcerias com empresas e instituições públicas.

3. Extensão e co-criação: da academia à sociedade

Um dos modelos discutidos foi o extensionismo, muito desenvolvido no Brasil:

Investigadores que vão ao terreno (campo, comunidades locais) levar resultados de estudos. Não se limita a “explicar” – envolve: recolher fotografias, testemunhos, memórias; perceber perceções e medos das comunidades; adaptar a comunicação à realidade vivida.

Esta lógica aproxima-se da ciência cidadã e da ideia de science with and for society: ciência feita com as pessoas, e não sobre as pessoas.

4. Modelos de Comunicação de Ciência

4.1. Modelo de défice (clássico)

Pressupõe que o problema é a falta de conhecimento do público. Comunicação é: unidirecional; factual; “seca”, difusionista (“os cientistas produzem, o público recebe”).

4.2. Modelo 2.0 / envolvimento

Com a chamada “ciência 2.0”, surgem propostas de: maior diálogo; envolvimento do público em fases do processo científico; participação em decisões sobre risco e tecnologia.

4.3. Modelo de continuidade (intra → inter → pedagógico → popular)

A ciência circula: Dentro da mesma área científica; Entre diferentes disciplinas; Em contextos pedagógicos (ensino); No espaço de popularização (media, eventos, redes). Este modelo também é contestado, mas ajuda a pensar níveis e linguagens diferentes para públicos diferentes.

5. O que torna a comunicação de ciência “estratégica”?

Há uma diferença entre:

Atos táticos: fazer um post, uma infografia ou um podcast quando “sai um artigo”; Comunicação estratégica de ciência: tem plano, objetivos, prioridades e critérios de avaliação.

5.1. Ponto de partida: identidade científica

Antes de comunicar, uma instituição científica precisa de se perguntar:

Quem somos? (missão, visão, valores) Qual é a nossa política científica? Em que temas queremos ser reconhecidos como referência? Que papel queremos ter na sociedade (liderança de pensamento, inovação aplicada, serviço público, etc.)?

As respostas orientam o que comunicar e como o fazer.

5.2. Três níveis estratégicos

Estratégia de informação Mais próxima do modelo de défice. Objetivo: difundir factos, resultados, avisos. Estratégia de comunicação Comunicação já é bidirecional: há canais para perguntas e feedback. Comentários, sessões de esclarecimento, Q&A online, etc. Estratégia de relacionamento Construção de relações duradouras com públicos prioritários. Envolve eventos, co-criação, participação pública, redes de colaboração.

A escolha do nível influencia formatos, recursos e intensidade da presença pública.

6. Segmentação de públicos e escolha de canais

Um dos erros recorrentes: falar de “público em geral” como se fosse um bloco homogéneo.

6.1. Exemplos de públicos da ciência

Decisores políticos (governo, administração pública); Financiadores; Comunidade científica (pares); Empresas e setor privado; Estudantes (atuais e potenciais); Comunidades locais afetadas por projetos; Media; Pessoas interessadas em temas específicos (saúde, ambiente, tecnologia).

6.2. Mensagens diferentes para públicos diferentes

Não se fala com o governo da mesma forma que com potenciais alunos. A mesma investigação pode originar: um policy paper; um artigo de jornal; um vídeo TikTok; um seminário com comunidade local; um post para redes internas.

6.3. Canais

Media tradicionais: televisão, rádio, imprensa – ainda vistos como fontes credíveis. Redes sociais: perfis institucionais de universidades, centros, hospitais; TikTok, Instagram, YouTube para chegar a públicos jovens; devem ser claros quanto à autoria (não confundir com perfis genéricos). Websites institucionais: cada vez mais usados para conteúdos de saúde e esclarecimento; combinados com televisões internas em hospitais, vídeos, infografias.

7. Auditoria e diagnóstico em comunicação de ciência

Para que a comunicação seja verdadeiramente estratégica, é necessário diagnosticar:

Que informação as pessoas querem receber; Se sentem que a informação atual é suficiente; Que canais usam e em quais confiam mais.

Ferramentas possíveis:

Observação direta; Questionários com escalas de satisfação; Entrevistas; Focus groups.

Sem este diagnóstico, arrisca-se a comunicar “para o vazio”.

8. Práticas e formatos de comunicação de ciência

Apresentações científicas (congressos, colóquios). Policy papers e relatórios para decisores políticos. Press releases e interação com jornalistas (valor noticioso, temas visuais como oceanos, biodiversidade). Eventos públicos: debates, cafés de ciência, visitas guiadas a laboratórios. Podcasts: síntese de literatura, explicação de conceitos, entrevistas. Colaborações artista–cientista: ilustração científica, cartoons, performances; facilitação gráfica em focus groups, com desenhos em tempo real que traduzem discussões complexas; resumos visuais de teses e projetos. Visualização de dados: infografias, mapas, dashboards.

9. Relações Públicas da Ciência

Alguns autores falam de “science public relations”:

Uso de técnicas de relações públicas para: mapear públicos prioritários; gerir reputação e credibilidade; democratizar participação; usar canais digitais de forma responsável (cientistas virtuais, visualizações, plataformas interativas); equilibrar abertura à participação com a integridade epistémica (ou seja, a verdade do conhecimento científico).

10. Desafios contemporâneos

10.1. Influenciadores, médicos midiáticos e pseudo-especialistas

Influencers de saúde e bem-estar ocupam espaço deixado vazio por instituições científicas. Alguns trabalham bem evidência científica; outros difundem desinformação com grande alcance. O público nem sempre verifica: formação base; credenciais; fontes usadas.

10.2. Efeito das séries e da ficção

Séries como CSI, House ou dramas médicos criam expectativas irreais: resultados em minutos; tecnologias que não existem; investigações relâmpago. Depois o público estranha a lentidão, a incerteza e a complexidade da ciência real.

10.3. Washing e incoerência institucional

Greenwashing, rainbow washing, “science washing”: organizações que comunicam sustentabilidade, igualdade, diversidade ou defesa da ciência, mas cujas práticas contradizem o discurso. A médio prazo, isto corrói a confiança na comunicação institucional.

10.4. Inteligência artificial, bots e cientistas virtuais

Conteúdos criados por IA podem: parecer legítimos, mas conter erros ou distorções; simular especialistas que não existem. A comunicação de ciência precisa de: reforçar a identificação clara da fonte; explicar limites da IA; ensinar o público a reconhecer sinais de credibilidade.

11. Ideia-chave da aula

Comunicar ciência de forma estratégica significa:

Sair da lógica do “fazer um post” e entrar na lógica do “construir relações, confiança e literacia ao longo do tempo”.

Implica:

Clarificar identidade e prioridades científicas; Definir objetivos e públicos; Escolher estratégias (informar, dialogar, relacionar); Planear e avaliar; Ser coerente entre discurso e prática; Enfrentar de frente influenciadores, desinformação e desafios digitais.


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